Essa é a história de duas borboletas que não se encontraram por acaso. Ambas passaram tempo demais cuidando de jardins separados, cada uma aprendendo, à sua maneira, que flores não nascem onde a terra é ferida sem descanso.
A borboleta mais velha já tinha voado por muitos canteiros. Conheceu cores intensas, aromas promissores e, também, tempestades que rasgaram suas asas. Aprendeu do jeito duro: quedas, despedidas, silêncios longos demais. A vida não foi gentil, mas foi insistente. E, depois de muito apanhar do vento, ela descobriu que podia voar mais alto, não por orgulho, mas por sobrevivência. Ali em cima, o ar era rarefeito, mas menos cruel.
Já a borboleta mais nova conhecia menos jardins. Tinha pousado apenas em um, e foi ali que o frio se instalou cedo demais. Suas asas quase não aguentaram. Houve um momento em que ela pensou que não conseguiria mais voar. Que talvez o chão fosse o único destino possível. Mas ficou. Sobreviveu. E, com o tempo, começou a cuidar da própria terra, mesmo sem saber direito como.
Quando se encontraram, não foi explosão de feromônio. Foi reconhecimento. Duas asas marcadas se olhando com respeito. A borboleta mais velha voava mais alto, sim. Tinha mais fôlego, mais visão do horizonte. A mais nova, ainda insegura, começava a subir aos poucos, estimulada por aquele voo firme que não exigia pressa, nem provas. Só presença.
Às vezes, porém, o vento batia forte na borboleta mais nova. Ela se comparava. Pensava nas outras que já haviam voado ao lado da mais velha, asas talvez mais largas, cores mais vibrantes, voos mais seguros. Sentia-se menor. Insuficiente. E, em silêncio, continuava batendo as asas, sabendo que confiança não se exige, se constrói. E que o agora é o único jardim que realmente importa. Ela entendia que o tempo era essencial. Que a borboleta mais velha precisava reaprender a confiar, não como antes, mas de outro jeito. Com mais cuidado. Com menos ilusão. Com mais verdade. Como se estivesse retomando o seu casulo de alguma forma.
Porém, nos últimos dias, vieram tempestades. Chuvas insistentes. Ventos tortos. Outros insetos cruzando o caminho da borboleta mais velha sem delicadeza. E, para a borboleta mais nova, doía ver sua companhia lutando para manter altitude. Doía não poder fazer mais do que o próprio tamanho permitia. Que a distância entre eles possibilitava. Havia impotência ali. Mas havia também escolha. Mesmo voando a distâncias diferentes, elas estavam juntas. Mesmo com cicatrizes visíveis, compartilhavam o mesmo céu. O jardim, esse sim, estava bem cuidado. Florindo. Não perfeito, mas vivo.
E a borboleta mais nova sempre estará lá. Comemorando cada voo. Apoiando cada tentativa. Fazendo o que pode, do jeito que sabe. Porque amar, às vezes, não é impedir a tempestade. É voar junto, é segurar e reerguer, mesmo quando o céu escurece, porque a mesma chuva que assusta é a que faz o jardim sobreviver.

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