segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quem desiste primeiro não é quem vai embora



Me diz o que aconteceu, me conta o que mudou, me faz as perguntas que ficaram pelo caminho e vamos tentar voltar para o começo, porque em algum ponto tudo saiu do lugar e ninguém teve a coragem de avisar. As memórias me atravessam como se alguém insistisse em abrir a mesma ferida todos os dias, e eu vou me fechando de novo, não por frieza, mas por exaustão. 

Eu já não sei mais pelo que vale a pena lutar, porque parece que só eu estou tentando manter algo vivo enquanto você apenas deixa escorrer pelos dedos, e isso cansa de um jeito que não tem nome. Às vezes sinto que estou insistindo no impossível, batendo em algo que não responde, e outras vezes o que dói é perceber que talvez nem haja mais resistência, só ausência. Eu fico me perguntando o tempo todo onde foi que eu errei, se eu te decepcionei, o que eu disse, o que eu fiz, em que instante aquela pessoa que eu conheci virou outra sem me levar junto, porque tudo mudou rápido demais: o jeito de falar, o jeito de escrever, o jeito de olhar, o jeito de se importar. É difícil aceitar que eu já não reconheço em você quem me fez apaixonar, não porque deixou de existir, mas porque foi ficando seco, distante, opaco, como alguém que continua presente só por hábito. 

As mensagens ficaram curtas, o carinho virou exceção, o futuro virou um assunto evitado, e eu fico aqui tentando entender se isso é desinteresse, medo ou apenas conveniência. Eu sei que posso parecer exagerado, sempre fui, talvez porque eu ame mais do que devia, talvez porque eu seja mais você do que eu mesmo, vivendo de lembranças, de olhares antigos e de alguns abraços que hoje parecem relíquias. Minha cabeça não ajuda, é um turbilhão constante, e quando eu tento falar você desvia, minimiza, diz que é o seu jeito, que sempre foi assim, e eu entendo quem você é, de verdade, mas não é disso que estou falando. Eu estou falando da gente. Porque não basta existir o eu e o você, existe o nós, e se você sabe muito bem quem é sozinho, eu preciso saber quem nós somos juntos. 

Eu não quero promessas grandiosas, nem perfeição, nem juras vazias, eu só quero o mínimo, e o mínimo não deveria precisar ser pedido. Porque vai deixando, vai adiando, vai empurrando para depois, e quando perceber, passou, e quando olhar para trás, eu já não vou estar mais aqui.
Às vezes me pergunto se você está comigo por comodidade, por pena, por medo de terminar, com receio de que eu faça algo contra a minha vida se isso acabar, mas o jeito como você me trata machuca mais do que qualquer morte. Não é justo ter que implorar por atenção, por presença, por afeto básico. Eu só quero ser amado sem precisar negociar isso. Eu fico me perguntando se não sou suficiente, se não sou o que você imaginou, do que exatamente você foge, por que é tão difícil ser honesto comigo. 

Você diz que se importa, que tem carinho, que gosta, mas nunca é direcionado, nunca é inteiro, nunca é comigo de verdade. Você evita falar de amor, muda de assunto quando o futuro aparece, como se sentir fosse um risco grande demais. Desvia o olhar. E eu só queria entender: se você tem tanto medo do amor, você tem coragem do quê? Me fale dos seus medos, como eu te falo dos meus, porque seus receios mais me afastam do que aproximam. Porque eu estou cansado de lutar sozinho, cansado de amar no escuro, cansado de tentar salvar algo que talvez só eu ainda esteja tentando salvar. O pior não é o fim, é essa espera, essa falta de resposta, essa sensação constante de estar gritando dentro de um lugar onde ninguém mais escuta. E se eu cruzar o limite?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A Delicadeza da Espera

 


Há um tipo de dor que não faz barulho. Ela não se anuncia, não pede testemunhas. Ela apenas se instala. Estou vivendo dentro dela. 

Foi mais como um deslizamento lento. Uma mudança no ar. Um espaço que começou a existir onde antes havia presença. E agora tudo em mim anda com cuidado, como quem pisa num chão que pode ceder a qualquer momento. Sinto-me como alguém que perdeu a visão no meio do caminho. Não por escuridão, mas por excesso de incerteza. Vou tateando os dias, tentando reconhecer o mundo por memória. O futuro parece ali, logo adiante, mas só se revela quando alguém acende a luz e eu espero sem exigir que ela seja acesa. 

Não é responsabilidade de ninguém carregar minhas angústias. Ainda assim, há coisas da vida que ficam suspensas quando não se sabe para onde seguir. E eu permaneço nesse intervalo, aprendendo a respirar entre uma possibilidade e outra. Os dias se parecem com um pesadelo interminável. A sensação é estranhamente parecida com luto, como se algo muito vivo tivesse ficado imóvel dentro de mim. Nada morreu, porque acredito no que sinto e serei fiel ao meu amor até que eu apodreça, morto e enterrado. 

O que dói é estar de mãos atadas. Não por falta de vontade, mas por excesso de cuidado. Qualquer palavra pode ser demais. Qualquer gesto pode romper algo frágil demais para ser tocado agora. Então fico em silêncio, não por ausência de amor, mas por respeito. Continuo vivendo, mas tudo acontece em tom menor. O mundo segue, as pessoas falam, os dias passam e eu passo por eles como quem atravessa uma casa escura sem querer acender a luz, com medo de assustar o que ainda pode estar ali, mas querendo espantar os fantasmas que em suma são apenas sombras de móveis que parecem monstros onde não há clareza.

E mesmo assim, eu amo. Com uma intensidade que não se exibe. Amo como quem permanece sentado à beira da cama esperando que alguém acorde. Nunca amei ninguém assim. Não com a pressa dos romances fáceis, mas com essa entrega silenciosa de quem permanece mesmo quando não é visto. Amar, agora, é aceitar a espera sem transformá-la em acusação. É sentir a dor sem apontar culpados. Só com essa certeza estranha de que o sentimento existe mesmo quando não é dito. Não sei o que esse silêncio significa. Talvez seja apenas um intervalo necessário. Talvez seja o jeito que a vida encontrou de reorganizar o que saiu do lugar. Eu não sei. 

E aprender a não saber tem sido uma das tarefas mais difíceis que já enfrentei. Mas há algo que ainda pulsa, forte, robusto. Uma esperança que não grita, não implora, não corre. Ela apenas fica e espera. Como uma luz acesa em outro cômodo: não ilumina tudo, mas prova que a casa ainda não está vazia. E por enquanto, isso basta para continuar. Se este texto chegou até você, cito aqui versos de alguém que gosto muito e você conhece: “Eu ainda estou aqui, perdido em mil versões irreais de mim. Estou aqui por trás de todo o caos em que a vida se fez [...] Não me esqueci de quem eu sou e o quanto devo a você. Tenta me reconhecer no temporal, me espera.” Tenta não se acostumar, porque eu te espero. O tempo que for.

Créditos por citação:
Música: “Me Espera” – Sandy feat. Tiago Iorc (2016).

Tudo o que não sei enquanto espero

 

 

Há um tipo de dor que não grita, mas ocupa tudo. Ela se senta à mesa enquanto sou mero telespectador das refeições de quem convive comigo. Ela se deita ao meu lado quando tento dormir e me acorda antes de cochilar. Ela atravessa o dia inteiro como um pensamento fixo: você. Uma forma silenciosa de desordem. Nada explode, tudo apenas sai do lugar. Não consigo comer. O corpo rejeita a rotina como se ela fosse uma ofensa pessoal. Não consigo trabalhar. As palavras se desfazem antes de alcançar sentido. Não consigo pensar em outra coisa porque o pensamento inteiro passou a ter o seu nome.

Olho o celular a cada minuto. Tudo parece suspenso. O dia perde sentido, as horas não avançam, o mundo continua funcionando sem perceber que algo essencial em mim parou. É como se eu estivesse aguardando a luz do sol num quarto sem janelas. Tento ser resiliente, porque amor é isso, não é? Insistir quando a razão já se sentou cansada, pedindo silêncio. 

É como se fosse 2020 novamente e todos achávamos que quando o ano virasse o covid acabaria, só porque o ano virou. Foi essa sensação ao ver o relógio passar da meia-noite. Uma esperança de que sua mensagem chegasse, de que você precise apenas de tempo, de que ainda exista um espaço onde você possa me ouvir sem ruído, sem defesa, sem pressa. Em que você acredite em mim. Porque não consigo cogitar que você esteja pensando o que suponho. É um disparate associar isso a mim e no fundo você sabe.

Eu só preciso explicar. E você, talvez, só precise de tempo. 

Passei o dia chorando com a sensação de ter algo cravado no peito. Uma dor violenta, era persistente. Uma dor que não mata de uma vez, mas cansa. Que não sangra, mas enfraquece. Chorei até o ponto em que a vida ficou estreita. A dor me levou ao limite, por pouco não abracei a morte duas vezes no mesmo dia. Porque não quero e não cogito um futuro sem você. Não mais.

Estou definhando aos poucos. O sono não vem quando eu chamo. E quando vem, chega curto, frágil, quase um favor. Nele, você aparece. Sua mensagem chega. Seu nome ilumina a tela. Você liga. E por alguns segundos tudo volta ao lugar certo, até que eu acordo.

Ainda não são sete da manhã. Sonhei que estava diante de você, que você me olhava nos olhos com aquela mistura de firmeza e cuidado que eu conheço tão bem. Acordei. Havia apenas a parede fria pela chuva insistente, o dia começando cinza para as pessoas e, preto e branco para mim.

Naquela mesma parede, sua foto continua. Na cabeceira, você permanece. No meu coração, você não saiu. E na minha alma, essa parte que não se explica, não se organiza, não se defende, você ficará por tempo indefinido. Talvez para sempre. Porque há amores que não acabam. Eles apenas ficam suspensos, esperando que a verdade encontre o momento certo de ser dita.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

desabafo lúcido de alguém exausto de sentir demais

 

Se eu morrer, não será de overdose ou suicídio. 
Será de tristeza.

Será desse pensamento que não desliga,
desse cérebro que nunca aceita o silêncio,
que transforma pequenos sinais em teorias,
olhares em ameaças,
pausas em abandonos iminentes.

Eu penso demais.
Analiso demais.
Sinto demais.
E o excesso cansa mais do que qualquer vício.

Há dias em que a mente cria labirintos tão complexos que não importa quantas vezes eu tente explicar: ninguém de fora entende.
Chamam de paranoia, exagero, drama.
Mas quem vive dentro da própria cabeça sabe que o medo não pede permissão para existir.

Os medicamentos, que um dia prometeram equilíbrio, hoje parecem decorativos.
Estão ali, cumprindo protocolo,
mas já não alcançam o lugar onde a angústia se esconde.
Eles não silenciam o coração acelerado,
não interrompem os filmes catastróficos que passam em looping,
não seguram a queda quando tudo dentro começa a desabar.

E então existe a bebida.
Não como festa.
Não como fuga bonita.
Mas como anestesia.

Ela não resolve, eu sei.
Nunca resolveu.
Mas, por algumas horas, ela cala.
Ela entorpece a dor que não sabe esperar,
ela desacelera a mente o suficiente para que eu não enlouqueça.
É cansativo depois.
O corpo cobra.
A cabeça pesa.
A culpa vem.

E ainda assim, naquele momento, parece necessária.
Porque a alternativa é pior:
é perder o controle,
é chorar sem saber por quê,
é surtar em silêncio enquanto todo mundo acha que está tudo bem.

O que mais dói, às vezes, não é beber,
é a cobrança de quem está de fora.
“Para!”
“Isso não ajuda!”
“Você precisa ser mais forte!”

Como se força fosse um botão.
Como se parar fosse simples.
Como se o caos interno respeitasse conselhos bem-intencionados.

Ninguém vê o esforço diário para não desmoronar.
Ninguém sente o peso de existir com medo constante.
Ninguém entende que, às vezes, não é sobre querer se destruir,
é sobre tentar sobreviver ao próprio excesso de sentir.

Se eu morrer, não será por escolha consciente.
Será por desgaste.
Por tristeza acumulada.
Por noites mal dormidas.
Por pensamentos que nunca descansam.

Será porque viver, em certos dias, exige mais do que eu tenho para oferecer.

E ainda assim, eu continuo.
Sem saber até quando.
Mesmo cansado.
Mesmo falho.
Mesmo com medo.

Porque, no fundo, isso não é um pedido de fim.
É um pedido de silêncio.
De paz.
De descanso dentro da própria mente.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Síndrome de Takotsubo

 

 
 

A Síndrome de Takotsubo é conhecida popularmente como síndrome do coração partido. Do ponto de vista médico, trata-se de uma condição cardíaca temporária, geralmente desencadeada por estresse emocional intenso, perdas, choques, abandonos, dores profundas. O coração, subitamente, perde força. O ventrículo esquerdo assume uma forma estranha, lembrando um vaso japonês usado para capturar polvos: o takotsubo.

Os sintomas imitam um infarto. Dor no peito. Falta de ar. Taquicardia. Medo. Mas, diferente do infarto clássico, não há artérias obstruídas. O que há é excesso de emoção. Um colapso provocado não pelo corpo, mas pelo que ele sentiu. É curioso pensar que sentimentos podem deformar o coração. Dizem que é raro. Dizem que é passageiro. Dizem que o coração se recupera. Mas ninguém fala do que acontece antes. Ninguém fala do processo.

Porque existe um romantismo cruel em torno da ideia de “morrer de amor”. Como se fosse bonito. Como se fosse poético. Como se fosse digno. Como se amar até doer fosse uma virtude, e não um alerta. A literatura ensinou que sofrer por amor engrandece, que o coração partido é sinal de profundidade, que se consumir por alguém é prova de intensidade.

Mas ninguém avisa que o amor também dói. Que ele aperta. Que ele pode esmagar. Amar, às vezes, não é um golpe súbito. É um aperto lento. Diário. Silencioso. É sentir, pouco a pouco, os tentáculos do amor saindo do jarro. Primeiro com delicadeza. Depois com insistência. Até que, quando se percebe, eles já estão em volta do coração, apertando com uma força que não parece violenta, mas involuntarimente é.

E você observa. Observa porque ainda há beleza. Porque ainda há carinho. Porque ainda há memória. Porque ainda há aquela esperança teimosa de que amar assim é nobre, é raro, é bonito. Você senta e assiste ao próprio coração sendo comprimido, dia após dia, numa morte lenta e agridoce.

É difícil admitir que o que te faz sentir vivo também pode te adoecer. É difícil aceitar que o amor, fora do romance idealizado, não salva sempre. Às vezes ele cobra. Às vezes ele exige demais. Às vezes ele não sabe a hora de ir embora. O corpo sente o que a boca não diz. O coração responde ao que a razão tenta justificar. E então vem a dor no peito. A falta de ar. O colapso. O coração assume a forma do sofrimento.

Talvez a Síndrome de Takotsubo seja isso: o momento em que o corpo decide interromper uma história que a alma insiste em continuar. Um pedido de socorro fisiológico diante de uma emoção que não encontrou saída. Não é bonito morrer de amor. Não é poético. Não é romântico quando acontece de verdade.

É silencioso. É confuso. É assustador. E talvez a maior tragédia seja essa: perceber que amar não deveria doer assim, mas dói. Que amar não deveria esmagar, mas esmaga. Ainda assim, há quem continue chamando isso de amor. Talvez porque admitir o contrário doa mais.

Eu sou um desses, não dou o braço a torcer. Não peço cura. Não imploro que o jarro se feche, nem que os tentáculos recuem. Eu os reconheço, são feitos da mesma matéria que me ensinou a amar. Há em mim uma estranha fidelidade à dor, não por prazer, mas por lealdade. Se amar exige atravessar o aperto no peito, então que aperte. Se amar cobra o preço do cansaço, da ansiedade, da vigília eterna, eu pago. Porque ainda amo. E amar, para mim, nunca foi indolor.

Aceito esse coração que se contorce, esse músculo cansado que bate como quem pede desculpas por continuar vivo. Aceito porque desistir do amor seria uma morte mais abrupta do que essa que se arrasta devagar. E eu prefiro a lentidão agridoce de quem sente tudo à anestesia covarde de quem não sente mais nada.

Se for para morrer, que seja assim: amando até o último espasmo, confundindo dor com afeto e afeto com sobrevivência. Porque, no fim das contas, seja pelo amor ou pela dor, eu sei: vou amar até o último dia da minha vida.

 

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