quinta-feira, 12 de março de 2026

Eu gostava mais quando meu carro tinha som



Eu estou cansado. Cansado de verdade. Não aquele cansaço que se resolve com uma boa noite de sono ou um fim de semana sem compromissos. É um cansaço mais fundo, mais silencioso, que parece morar dentro do peito.

Estou cansado de ter que cobrar o mínimo. Cansado de precisar explicar coisas que, para mim, deveriam ser óbvias quando existe amor. Cansa ter que apontar que estou ali, esperando ser visto, esperando ser escolhido, enquanto percebo que outras coisas, compromissos, distrações, prioridades que nunca sou eu, acabam sempre ocupando o lugar que eu gostaria de ter.

Também cansa perceber que, no meio disso tudo, eu me sinto sozinho. Não é só sobre um relacionamento. É sobre olhar ao redor e perceber que não existem muitos lugares onde eu possa simplesmente existir sem precisar justificar meus sentimentos ou explicar por que algo me machuca. Eu estou cansado das cobranças da minha mãe. Cansado da sensação constante de que cada escolha minha pode virar um julgamento, uma crítica ou um lembrete de que eu deveria estar vivendo de outro jeito. Como se a vida que eu tento construir nunca estivesse exatamente dentro do que esperam de mim. Às vezes eu sinto que não estou vivendo de verdade. Que estou apenas cumprindo papéis. Fazendo o que esperam. Tentando evitar conflitos. Tentando manter tudo funcionando. Como se a minha própria vida fosse um roteiro escrito por outras pessoas, e eu só estivesse interpretando.

E o pior é aquela sensação silenciosa de que nada do que eu faço parece ser suficiente. Eu tento. Eu penso. Eu me esforço. Eu me explico. Eu volto atrás. Eu tento de novo. Mas, em algum momento, parece que sempre existe algo errado comigo, como se eu estivesse constantemente devendo alguma coisa para o mundo.

Tem dias em que a sensação fica ainda mais estranha. Como se eu estivesse lutando contra alguma força invisível. Como se todas as energias do universo tivessem decidido me colocar à prova ao mesmo tempo. E nesses momentos até pensamentos que eu normalmente eu não teria acabam aparecendo: se existe um Deus, será que ele simplesmente não gosta de mim?

Eu sei que isso talvez soe exagerado para quem está olhando de fora. Mas por dentro é diferente. Por dentro é um acúmulo de pequenas frustrações, pequenas solidões, pequenas decepções que vão se empilhando até formar um peso difícil de explicar.

Talvez esse texto não seja uma conclusão. Talvez seja apenas um desabafo. Um registro honesto de um momento em que eu me sinto esgotado de tentar ser forte o tempo todo. Porque, às vezes, tudo o que a gente consegue fazer é admitir o óbvio: eu estou cansado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Não me peça para sangrar em silêncio


https://i.pinimg.com/736x/41/6c/85/416c85cf118c4123efe6ed1b39e0dc89.jpg

Estou passando por uma fase em que só consigo esquecer a dor quando estou bêbado ou dormindo. Todo o resto do tempo é atravessar os dias com o peito aberto, tentando respirar enquanto algo em mim sangra. Não é escolha, é fuga. Um intervalo curto de silêncio dentro de uma mente que não descansa. 

Tudo começou maravilhosamente bem. Parecia um conto de fadas moderno, improvável, intenso. Tinha cheiro de promessa, gosto de futuro, textura de casa. Era leve, bonito demais para ser real. E, de repente, tudo desmoronou. Sem aviso. Sem preparação. Sem explicação. O encanto virou ruído. O cuidado virou distância. A sensibilidade virou apatia. 

Você mudou. Ficou seco, distante, egoísta. Onde antes havia diálogo, agora existe silêncio. Onde havia afeto, agora há frieza. Eu te peço tão pouco, coisas simples, pequenas, quase bobas e você transforma isso em cobrança, como se eu estivesse exigindo algo impossível, como se amar fosse um sacrifício e não uma escolha. Não quero te podar. Não quero te limitar. Eu só quero não sangrar. Quero que entenda que essas pequenas coisas me machucam. É tão difícil não as fazer? Sério, é tão difícil assim? 

Há dias em que o silêncio pesa mais do que qualquer palavra dura. Ficar sem notícias enquanto você atravessa vinte e quatro horas com o celular na mão, esperar um sinal é uma forma lenta de esgotamento. Cada minuto sem resposta cria uma história nova dentro da cabeça, e o que era apenas espera vira ansiedade, e o que era apenas curiosidade vira medo. Uma simples explicação, que poderia aliviar tudo, se transforma em algo que você chama de monitoramento, como se pedir presença fosse vigiar, como se querer saber do outro fosse invadir. E se eu digo, você acha que estou duvidando da sua lealdade. Coloca na balança, para e pensa um pouquinho, não é difícil. E assim eu fico, parado entre a vontade de falar e o receio de incomodar, entre a necessidade de existir para você e o medo de ser demais. 

Mas você parece confundir limite com prisão, pedido com controle, afeto com ameaça. E então faz exatamente aquilo que sabe que me fere. Não por descuido, mas por desafio. Como uma criança birrenta que precisa provar algo ao próprio ego. Você sabe exatamente onde dói e toca. Sempre toca. E eu fico me perguntando: isso é gostar? Isso é amor? Como alguém consegue colocar coisas tão pequenas, tão passageiras, acima de sentimentos tão grandes? De pessoas? De vínculos? 

Você se fechou dentro de um casulo e chama isso de proteção. Usa essa armadura para se defender de algo que não quer te ferir. Se alguém algum dia te machucou, eu não sou essa pessoa. Eu não sou o seu trauma. Eu sou o seu agora. E mesmo assim, parece tão difícil entender que eu sinto. Que eu me machuco. Que eu me quebro um pouco toda vez que você escolhe ignorar aquilo que eu peço com tanto cuidado. 

Dentro de mim existe um arrombo no meio do peito. Um buraco que não cicatriza. Às vezes você vem, cobre com um esparadrapo frágil, oferece calor, devolve esperança. E eu respiro. Mas logo depois, sem aviso, puxa com força, repetindo exatamente o que sabe que vai me derrubar. Esse vai e vem me desmonta. Me confunde. Me adoece. Que tipo de cuidado é esse que fere mais do que protege? Que tipo de amor é esse que machuca mais do que acolhe?

Você disse à minha mãe que sente um carinho imenso por mim, que me ama. E eu tento entender que amor é esse tão incompreensível, que me deixa em permanente estado de alerta, tentando adivinhar se hoje será dia de abrigo ou de queda. Que amor é esse que me faz desejar desaparecer só para não sentir mais nada? A vontade de morrer, a exaustão de existir assim. Estou cansado de sangrar. 

Os dias têm sido difíceis. Pesados. Arrastados. Há uma vontade constante de sumir, de pausar o mundo, de desligar tudo por um tempo. Só para respirar sem medo, sem receio, sem esse nó permanente no peito. Pensar machuca. Sentir machuca. Estar acordado dói. E às vezes a embriaguez parece a única trégua possível. 

Mesmo assim, continuo. Tentando entender meus limites. Tentando não me perder completamente de mim. Tentando permanecer inteiro em um lugar que me fragmenta. Às vezes consigo. Às vezes não. Mas sigo, mesmo sem saber direito para onde estou indo. 

Escrevo porque preciso escoar. Porque guardar machuca mais. Porque transformar dor em palavra é uma forma de sobreviver a ela. Organizar o caos. Dar nome ao que sangra. Talvez seja essa minha última forma de resistência.

No fundo, o que mais dói não é o que foi dito ou feito. É o que deixou de ser. É a promessa silenciosa de cuidado que nunca se cumpre. É amar alguém e, ainda assim, sentir-se sozinho.

Porque amor não deveria ser sobrevivência.
Amor deveria ser sobre vivência.

Manual para quem cresceu sem manual

 


Crescer é difícil. Ninguém avisa o quanto. Ninguém entrega um manual, um mapa, uma bússola. A gente simplesmente acorda um dia e percebe que virou responsável por si mesmo e isso assusta mais do que deveria.

Depois dos vinte, tudo vira uma confusão. A vida deixa de ser promessa e passa a ser cobrança. Você se torna um soldado em uma guerra invisível, chamada vida, em que os inimigos não usam armas, mas pensamentos: inseguranças, paranoias, medos de errar, medo de não ser suficiente, medo de decepcionar. Medo de tudo.

E o mais irônico é que estamos aqui exatamente para errar. Para tentar, tropeçar, cair, levantar, aprender. Mas parece que o mundo exige perfeição de quem ainda está aprendendo a existir. É estranho, para quem está de fora, me ver escrevendo algo assim já tendo trinta anos. Como se aos trinta tudo devesse estar resolvido, encaixado, concluído. Mas a verdade não está no “já”, está no “ainda”. Ainda estamos aprendendo. Ainda estamos tropeçando. Ainda estamos tentando entender quem somos e o que queremos. Crescemos alimentados pela ilusão de que nessa idade já teríamos a vida inteira organizada: família formada, casa própria, morando em uma cidade grande, emprego fixo, estabilidade emocional. Mas a realidade é bem menos cinematográfica. A gente não está vivendo um sonho pronto, a gente está sobrevivendo. Está matando um monstro por dia. Enfrentando batalhas invisíveis. Tentando não desmoronar diante de expectativas que nem sempre foram nossas.

Caminhamos como se estivéssemos em um campo minado. Cada palavra pode ser um risco. Cada sentimento exposto, uma vulnerabilidade. A gente mede o que fala, engole o que sente, pisa em ovos o tempo inteiro, com medo de dizer algo errado, ser mal interpretado, machucar alguém ou acabar explodindo tudo por uma frase mal colocada. O coração fica sempre aberto, mas nunca seguro. "Nem todo mundo está preprado para a sua intensidade", me disseram.

Às vezes, tudo o que eu queria era voltar no tempo. Fazer diferente. Dizer menos algumas coisas, dizer mais outras. Escolher melhor. Amar melhor. Me proteger melhor. Ou, quem sabe, poder destrinchar minha própria mente, abrir espaço, amadurecer à força e arrancar tudo aquilo que não presta: os medos, as culpas, as vozes internas que me diminuem.

Mas isso não é possível.

O que resta é acreditar no processo. Mesmo quando ele dói. Mesmo quando confunde. Mesmo quando parece lento demais. Acreditar nas pessoas que estendem a mão, mesmo sem garantia de permanência. Acreditar que cada passo, por menor que seja, ainda é um avanço. Crescer é aprender a continuar, mesmo cansado. É não sucumbir à pressão de ser perfeito. É entender que sobreviver emocionalmente já é uma forma imensa de vitória. É cair em prantos em silêncio e, ainda assim, levantar no dia seguinte.

Talvez a maturidade não seja ter todas as respostas, mas aceitar que a vida é feita de perguntas. Talvez crescer seja justamente isso: aprender a viver sem certezas, sem mapas, sem garantias, mas com coragem. Bem, pelo menos eu fui lá e fiz. Errei? Beleza, mas eu levantei e fui lá e tentei.

E enquanto não existe manual, a gente escreve o nosso, todos os dias, com erros, rasuras, lágrimas, esperança e fé. Rabiscando erros e tentativas no intuito de um dia acertar. E tudo bem errar no dia seguinte. O que seria dos acertos sem os erros? Como saberíamos que estamos no caminho certo? Erre e não tenha vergonha de errar. Tenha vergonha de não tentar e de não assumir que errou tentando. Na realidade, todo mundo está tentando, você só não vê.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

A delicadeza brutal de amar


Meu amor dói porque é real. Não é joguinho, não é distração, não é carência vazia. É vínculo. É entrega. É querer cuidar, proteger, somar, construir. É esse tipo de amor que cria raízes, que não aceita superficialidade, que não sabe existir pela metade. E quando se ama assim, segurar esse sentimento dentro do peito se torna quase físico. Parece que o corpo vai explodir se não falar, se não tocar, se não demonstrar. Amar, às vezes, dói como excesso.

Mesmo assim, tenho tentado esperar. Tentando me manter afastado, com carinhos leves e afetos bobos. Escolho o silêncio como forma torta de cuidado. Talvez isso seja amar na sua versão mais difícil: ter que me recusar para te aceitar, me conter para não te pressionar, me diminuir para não te perder. Vou me anulando aos poucos, fingindo que não sinto na intensidade que sinto, tentando caber num espaço menor do que aquele que sou. E isso dói. Dói calar quando tudo em mim quer gritar. Dói conter quando tudo em mim quer transbordar. Dói esperar quando tudo em mim quer correr. 

Sinto que estou me perdendo nesse processo. Me sufocando. Traindo, dia após dia, o meu próprio coração. E o que eu recebo em troca disso tudo? Quando peço algo simples, quase mínimo, encontro resistência. Silêncio. Desvio. Negação. Fico tentando entender: é orgulho? Egoísmo? Desatenção? É falta de empatia? Porque quando alguém faz algo sabendo que machuca, que abre feridas, que arranca lágrimas, não há muito o que discutir: há ausência de cuidado. E ausência de cuidado também é escolha. 

Não te peço o impossível. Não te peço gestos grandiosos, promessas eternas, sacrifícios épicos. Peço apenas o básico: presença, consideração, respeito. Coisas pequenas que, quando faltam, viram abismos. Mas toda vez que tento falar sobre o que me dói, você faz exatamente o oposto do que eu peço. E eu saio disso menor, mais inseguro, mais machucado, mais confuso. Não me diga que isso é justo. Não é.  Dizem que somos parecidos, que nossos signos se tocam, que nossas naturezas se reconhecem. Mas eu não me vejo em você quando me trata assim. Eu jamais faria comigo o que sinto que recebo. E talvez seja isso que mais doa: perceber que eu cuido de você de um jeito que não retorna para mim. 

Eu gosto tanto de você. Mas esse gostar vem acompanhado de um nó no estômago, de um aperto constante no peito, de uma ansiedade que não descansa. Amar não deveria ser um campo minado. Amar não deveria doer assim o tempo inteiro. Amar não deveria exigir que eu desapareça para que o outro fique confortável. 

Cheguei num ponto em que já não sei nomear o que sinto. Tudo se mistura: confusão, cansaço, tristeza, medo, exaustão emocional. Só sei que não quero mais viver nesse estado de alerta permanente, onde cada gesto é dúvida e cada silêncio é uma queda. 

Eu não posso mais abrir mão de mim. Não posso continuar me desmontando para tentar manter algo que só se sustenta porque eu seguro sozinho. Eu faço tudo o que posso. Dou mais do que sei. Tento mais do que consigo. Mas não posso continuar traindo minha própria existência em nome de um amor que não me devolve abrigo. 

Talvez amar também seja saber parar. Talvez cuidar de mim agora seja a forma mais honesta de continuar existindo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quem desiste primeiro não é quem vai embora



Me diz o que aconteceu, me conta o que mudou, me faz as perguntas que ficaram pelo caminho e vamos tentar voltar para o começo, porque em algum ponto tudo saiu do lugar e ninguém teve a coragem de avisar. As memórias me atravessam como se alguém insistisse em abrir a mesma ferida todos os dias, e eu vou me fechando de novo, não por frieza, mas por exaustão. 

Eu já não sei mais pelo que vale a pena lutar, porque parece que só eu estou tentando manter algo vivo enquanto você apenas deixa escorrer pelos dedos, e isso cansa de um jeito que não tem nome. Às vezes sinto que estou insistindo no impossível, batendo em algo que não responde, e outras vezes o que dói é perceber que talvez nem haja mais resistência, só ausência. Eu fico me perguntando o tempo todo onde foi que eu errei, se eu te decepcionei, o que eu disse, o que eu fiz, em que instante aquela pessoa que eu conheci virou outra sem me levar junto, porque tudo mudou rápido demais: o jeito de falar, o jeito de escrever, o jeito de olhar, o jeito de se importar. É difícil aceitar que eu já não reconheço em você quem me fez apaixonar, não porque deixou de existir, mas porque foi ficando seco, distante, opaco, como alguém que continua presente só por hábito. 

As mensagens ficaram curtas, o carinho virou exceção, o futuro virou um assunto evitado, e eu fico aqui tentando entender se isso é desinteresse, medo ou apenas conveniência. Eu sei que posso parecer exagerado, sempre fui, talvez porque eu ame mais do que devia, talvez porque eu seja mais você do que eu mesmo, vivendo de lembranças, de olhares antigos e de alguns abraços que hoje parecem relíquias. Minha cabeça não ajuda, é um turbilhão constante, e quando eu tento falar você desvia, minimiza, diz que é o seu jeito, que sempre foi assim, e eu entendo quem você é, de verdade, mas não é disso que estou falando. Eu estou falando da gente. Porque não basta existir o eu e o você, existe o nós, e se você sabe muito bem quem é sozinho, eu preciso saber quem nós somos juntos. 

Eu não quero promessas grandiosas, nem perfeição, nem juras vazias, eu só quero o mínimo, e o mínimo não deveria precisar ser pedido. Porque vai deixando, vai adiando, vai empurrando para depois, e quando perceber, passou, e quando olhar para trás, eu já não vou estar mais aqui.
Às vezes me pergunto se você está comigo por comodidade, por pena, por medo de terminar, com receio de que eu faça algo contra a minha vida se isso acabar, mas o jeito como você me trata machuca mais do que qualquer morte. Não é justo ter que implorar por atenção, por presença, por afeto básico. Eu só quero ser amado sem precisar negociar isso. Eu fico me perguntando se não sou suficiente, se não sou o que você imaginou, do que exatamente você foge, por que é tão difícil ser honesto comigo. 

Você diz que se importa, que tem carinho, que gosta, mas nunca é direcionado, nunca é inteiro, nunca é comigo de verdade. Você evita falar de amor, muda de assunto quando o futuro aparece, como se sentir fosse um risco grande demais. Desvia o olhar. E eu só queria entender: se você tem tanto medo do amor, você tem coragem do quê? Me fale dos seus medos, como eu te falo dos meus, porque seus receios mais me afastam do que aproximam. Porque eu estou cansado de lutar sozinho, cansado de amar no escuro, cansado de tentar salvar algo que talvez só eu ainda esteja tentando salvar. O pior não é o fim, é essa espera, essa falta de resposta, essa sensação constante de estar gritando dentro de um lugar onde ninguém mais escuta. E se eu cruzar o limite?
HIGOR CASAGRANDE © , All Rights Reserved. BLOG DESIGN BY Sadaf F K.