sexta-feira, 1 de maio de 2026

Devolva a minha paz

 


Alguns dias eu me sinto uma merda. Eu só queria parar e simplesmente ser normal por um tempo. E me pego tentando ficar por perto do telefone, mas me sinto um idiota, planejando meu dia em função de uma ligação. E, quando eu atendo, não tenho muito a dizer. Então eu quero que você saiba que isso é meio foda. Costumávamos ter planos, mas agora você só aparece de vez em quando. Merda… eu me pego apenas preenchendo meu tempo com qualquer coisa pra manter você longe da minha mente. Eu disse que você podia me ligar se achasse que havia algo a dizer, mas não sei se quero isso. Estou me sentindo tão sem esperança… me tornei tão entorpecido, estou tão cansado. Tudo o que eu quero é ser mais eu mesmo e ser menos você. E, embora eu tenha tentado, tudo desmoronou. O que isso significou pra mim vai, eventualmente, virar apenas uma memória. Eu caí, perdi tudo… estou surpreso que isso tenha ido tão longe. As coisas não são mais como antes. Você sequer me reconheceria agora (não que você me conhecesse de verdade naquela época). E agora eu gasto todo o meu dinheiro em bebidas, confuso e meio solitário. Você foi embora, e eu preciso ficar bêbado o tempo todo pra parar de pensar em você… pra conseguir chorar. Passo meus dias preso numa neblina. Preciso de mais um gole pra esquecer que estou sentindo sua falta. Tudo o que eu sempre quis… os segredos que você guarda, a verdade que eu não consegui falar. E você estava lá quando tudo mudou, esperando pra me contar. Porque eu não vejo perdão, e você não vê o crime. Somos suspeitos de um crime perfeito, mas crimes perfeitos não deixam suspeitos. Você nunca precisou da ajuda de ninguém. Você me vendeu pra se salvar, e eu não vou ouvir suas desculpas. Você fugiu. Vocês são todos iguais. Até mesmo as pessoas que nunca fraquejam acabam colapsando. Então por que eu nunca fui embora? Por que eu me enganei desse jeito? Coloquei minha confiança em você… aguentei o máximo que pude. Como está o castelo que você construiu com pessoas que você finge se importar? Foram seis meses de tortura que você vendeu como se fosse um paraíso proibido. E agora você me fez odiar essa cidade. Eu te amei de verdade. Eu deveria ter percebido que havia algo estranho. Não consigo entender exatamente como você faz isso e Deus sabe que eu nunca vou entender. Eu tentei te ajudar. Agora eu sei que não posso, porque o jeito que você pensa é algo que eu nunca vou compreender. E é por isso que eu sei que você nunca vai se sentir culpado pelo que me fez. Por cada noite sem dormir. Cada dia que passou. Pela grana que eu gastei. Pelo tempo que perdi em vão. Você virou as costas pra quem te queria bem. Pra você, o amanhã nunca existiu. Você esqueceu tudo o que vivemos, jogou fora dias, meses, lembranças. Você desperdiçou o nosso tempo. Não há mais nada a fazer. Eu te amei no seu pior momento… mas isso não importou. Deus… eu queria ter pensado melhor antes de cair nessa e me apaixonar por você. Não queria ter baixado aquele aplicativo. Não queria ter respondido sua mensagem. Não queria ter te dado uma chance, porque essa chance virou meu coração, e você o despedaçou. Mas eu sei que, algum dia, vou conseguir sair disso. Só que agora eu preciso de um lugar pra me esconder. Eu tentei tanto ser compreensivo… mas sei onde isso vai dar se eu permitir, e eu estou permitindo. Você não pode se redimir como se suas mãos ainda estivessem limpas. Você está marcado pro resto da sua vida. Pode tentar esconder essa marca, mas ela não vai desaparecer porque eu não saio com lavagem. E algum dia, suas mãos estarão vermelhas demais pra esconder a culpa. Você vai perceber que foi merecido. Não diga que não é justo. Você claramente não percebeu o quanto me deixou miserável. Nós não somos iguais. Eu nunca me trataria tão mal assim. Você estragou tudo que era bom. Eu tive que sorrir quando tudo em mim queria morrer. Não há nada que você possa fazer ou dizer. E você nem quer saber o quão solitário eu tenho estado. Você vem e vai, não importa como eu esteja. Parece que choveu na minha cabeça por cem dias. Eu olho no espelho e procuro outro rosto… tentando encontrar algum tipo de luz nos meus olhos. E eu digo que te odeio, mesmo sem odiar. É difícil rir quando a piada sou eu. Então… obrigado por ter ficado ao meu lado, mesmo que as coisas ruins tenham ocupado o lugar onde as coisas boas deveriam estar.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

230 dias

 

Foram 230 dias.
E ainda conto cada um no escuro.
Diga que não passa de mentira
quando dizem que o amor morreu.

Diga que o tempo fecha todas as feridas e que pra nós existe uma saída. 
Que, nem por um segundo, me esqueceu.

Você disse que em algum momento eu iria começar a te odiar.
Pode me dizer quando será?
Porque acho que prefiro ter ódio
do que esse amor doído que não vai.

Diga que não volta mais pra minha vida e que a nossa estrada é bipartida. 
Esqueça o dia em que me conheceu.

Estrada do inferno,
farol da solidão.
Dentro de um caderno,
um baque de redenção.

Intrigas, mentiras 
e noites mal dormidas.
Lições mal aprendidas.
Azar de quem fica, 
maldito quem vai.
Eu não sei nem o cheiro 
de abraço de pai.

A vida é um sopro,
é a boca da morte.
Me cuspiram pra fora
num golpe de sorte.

Se a gente não morre,
não cura dos cortes.
Mas vivendo piora…
Eu nunca fui embora. 

quinta-feira, 12 de março de 2026

Eu gostava mais quando meu carro tinha som



Eu estou cansado. Cansado de verdade. Não aquele cansaço que se resolve com uma boa noite de sono ou um fim de semana sem compromissos. É um cansaço mais fundo, mais silencioso, que parece morar dentro do peito.

Estou cansado de ter que cobrar o mínimo. Cansado de precisar explicar coisas que, para mim, deveriam ser óbvias quando existe amor. Cansa ter que apontar que estou ali, esperando ser visto, esperando ser escolhido, enquanto percebo que outras coisas, compromissos, distrações, prioridades que nunca sou eu, acabam sempre ocupando o lugar que eu gostaria de ter.

Também cansa perceber que, no meio disso tudo, eu me sinto sozinho. Não é só sobre um relacionamento. É sobre olhar ao redor e perceber que não existem muitos lugares onde eu possa simplesmente existir sem precisar justificar meus sentimentos ou explicar por que algo me machuca. Eu estou cansado das cobranças da minha mãe. Cansado da sensação constante de que cada escolha minha pode virar um julgamento, uma crítica ou um lembrete de que eu deveria estar vivendo de outro jeito. Como se a vida que eu tento construir nunca estivesse exatamente dentro do que esperam de mim. Às vezes eu sinto que não estou vivendo de verdade. Que estou apenas cumprindo papéis. Fazendo o que esperam. Tentando evitar conflitos. Tentando manter tudo funcionando. Como se a minha própria vida fosse um roteiro escrito por outras pessoas, e eu só estivesse interpretando.

E o pior é aquela sensação silenciosa de que nada do que eu faço parece ser suficiente. Eu tento. Eu penso. Eu me esforço. Eu me explico. Eu volto atrás. Eu tento de novo. Mas, em algum momento, parece que sempre existe algo errado comigo, como se eu estivesse constantemente devendo alguma coisa para o mundo.

Tem dias em que a sensação fica ainda mais estranha. Como se eu estivesse lutando contra alguma força invisível. Como se todas as energias do universo tivessem decidido me colocar à prova ao mesmo tempo. E nesses momentos até pensamentos que eu normalmente eu não teria acabam aparecendo: se existe um Deus, será que ele simplesmente não gosta de mim?

Eu sei que isso talvez soe exagerado para quem está olhando de fora. Mas por dentro é diferente. Por dentro é um acúmulo de pequenas frustrações, pequenas solidões, pequenas decepções que vão se empilhando até formar um peso difícil de explicar.

Talvez esse texto não seja uma conclusão. Talvez seja apenas um desabafo. Um registro honesto de um momento em que eu me sinto esgotado de tentar ser forte o tempo todo. Porque, às vezes, tudo o que a gente consegue fazer é admitir o óbvio: eu estou cansado.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Não me peça para sangrar em silêncio


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Estou passando por uma fase em que só consigo esquecer a dor quando estou bêbado ou dormindo. Todo o resto do tempo é atravessar os dias com o peito aberto, tentando respirar enquanto algo em mim sangra. Não é escolha, é fuga. Um intervalo curto de silêncio dentro de uma mente que não descansa. 

Tudo começou maravilhosamente bem. Parecia um conto de fadas moderno, improvável, intenso. Tinha cheiro de promessa, gosto de futuro, textura de casa. Era leve, bonito demais para ser real. E, de repente, tudo desmoronou. Sem aviso. Sem preparação. Sem explicação. O encanto virou ruído. O cuidado virou distância. A sensibilidade virou apatia. 

Você mudou. Ficou seco, distante, egoísta. Onde antes havia diálogo, agora existe silêncio. Onde havia afeto, agora há frieza. Eu te peço tão pouco, coisas simples, pequenas, quase bobas e você transforma isso em cobrança, como se eu estivesse exigindo algo impossível, como se amar fosse um sacrifício e não uma escolha. Não quero te podar. Não quero te limitar. Eu só quero não sangrar. Quero que entenda que essas pequenas coisas me machucam. É tão difícil não as fazer? Sério, é tão difícil assim? 

Há dias em que o silêncio pesa mais do que qualquer palavra dura. Ficar sem notícias enquanto você atravessa vinte e quatro horas com o celular na mão, esperar um sinal é uma forma lenta de esgotamento. Cada minuto sem resposta cria uma história nova dentro da cabeça, e o que era apenas espera vira ansiedade, e o que era apenas curiosidade vira medo. Uma simples explicação, que poderia aliviar tudo, se transforma em algo que você chama de monitoramento, como se pedir presença fosse vigiar, como se querer saber do outro fosse invadir. E se eu digo, você acha que estou duvidando da sua lealdade. Coloca na balança, para e pensa um pouquinho, não é difícil. E assim eu fico, parado entre a vontade de falar e o receio de incomodar, entre a necessidade de existir para você e o medo de ser demais. 

Mas você parece confundir limite com prisão, pedido com controle, afeto com ameaça. E então faz exatamente aquilo que sabe que me fere. Não por descuido, mas por desafio. Como uma criança birrenta que precisa provar algo ao próprio ego. Você sabe exatamente onde dói e toca. Sempre toca. E eu fico me perguntando: isso é gostar? Isso é amor? Como alguém consegue colocar coisas tão pequenas, tão passageiras, acima de sentimentos tão grandes? De pessoas? De vínculos? 

Você se fechou dentro de um casulo e chama isso de proteção. Usa essa armadura para se defender de algo que não quer te ferir. Se alguém algum dia te machucou, eu não sou essa pessoa. Eu não sou o seu trauma. Eu sou o seu agora. E mesmo assim, parece tão difícil entender que eu sinto. Que eu me machuco. Que eu me quebro um pouco toda vez que você escolhe ignorar aquilo que eu peço com tanto cuidado. 

Dentro de mim existe um arrombo no meio do peito. Um buraco que não cicatriza. Às vezes você vem, cobre com um esparadrapo frágil, oferece calor, devolve esperança. E eu respiro. Mas logo depois, sem aviso, puxa com força, repetindo exatamente o que sabe que vai me derrubar. Esse vai e vem me desmonta. Me confunde. Me adoece. Que tipo de cuidado é esse que fere mais do que protege? Que tipo de amor é esse que machuca mais do que acolhe?

Você disse à minha mãe que sente um carinho imenso por mim, que me ama. E eu tento entender que amor é esse tão incompreensível, que me deixa em permanente estado de alerta, tentando adivinhar se hoje será dia de abrigo ou de queda. Que amor é esse que me faz desejar desaparecer só para não sentir mais nada? A vontade de morrer, a exaustão de existir assim. Estou cansado de sangrar. 

Os dias têm sido difíceis. Pesados. Arrastados. Há uma vontade constante de sumir, de pausar o mundo, de desligar tudo por um tempo. Só para respirar sem medo, sem receio, sem esse nó permanente no peito. Pensar machuca. Sentir machuca. Estar acordado dói. E às vezes a embriaguez parece a única trégua possível. 

Mesmo assim, continuo. Tentando entender meus limites. Tentando não me perder completamente de mim. Tentando permanecer inteiro em um lugar que me fragmenta. Às vezes consigo. Às vezes não. Mas sigo, mesmo sem saber direito para onde estou indo. 

Escrevo porque preciso escoar. Porque guardar machuca mais. Porque transformar dor em palavra é uma forma de sobreviver a ela. Organizar o caos. Dar nome ao que sangra. Talvez seja essa minha última forma de resistência.

No fundo, o que mais dói não é o que foi dito ou feito. É o que deixou de ser. É a promessa silenciosa de cuidado que nunca se cumpre. É amar alguém e, ainda assim, sentir-se sozinho.

Porque amor não deveria ser sobrevivência.
Amor deveria ser sobre vivência.

Manual para quem cresceu sem manual

 


Crescer é difícil. Ninguém avisa o quanto. Ninguém entrega um manual, um mapa, uma bússola. A gente simplesmente acorda um dia e percebe que virou responsável por si mesmo e isso assusta mais do que deveria.

Depois dos vinte, tudo vira uma confusão. A vida deixa de ser promessa e passa a ser cobrança. Você se torna um soldado em uma guerra invisível, chamada vida, em que os inimigos não usam armas, mas pensamentos: inseguranças, paranoias, medos de errar, medo de não ser suficiente, medo de decepcionar. Medo de tudo.

E o mais irônico é que estamos aqui exatamente para errar. Para tentar, tropeçar, cair, levantar, aprender. Mas parece que o mundo exige perfeição de quem ainda está aprendendo a existir. É estranho, para quem está de fora, me ver escrevendo algo assim já tendo trinta anos. Como se aos trinta tudo devesse estar resolvido, encaixado, concluído. Mas a verdade não está no “já”, está no “ainda”. Ainda estamos aprendendo. Ainda estamos tropeçando. Ainda estamos tentando entender quem somos e o que queremos. Crescemos alimentados pela ilusão de que nessa idade já teríamos a vida inteira organizada: família formada, casa própria, morando em uma cidade grande, emprego fixo, estabilidade emocional. Mas a realidade é bem menos cinematográfica. A gente não está vivendo um sonho pronto, a gente está sobrevivendo. Está matando um monstro por dia. Enfrentando batalhas invisíveis. Tentando não desmoronar diante de expectativas que nem sempre foram nossas.

Caminhamos como se estivéssemos em um campo minado. Cada palavra pode ser um risco. Cada sentimento exposto, uma vulnerabilidade. A gente mede o que fala, engole o que sente, pisa em ovos o tempo inteiro, com medo de dizer algo errado, ser mal interpretado, machucar alguém ou acabar explodindo tudo por uma frase mal colocada. O coração fica sempre aberto, mas nunca seguro. "Nem todo mundo está preprado para a sua intensidade", me disseram.

Às vezes, tudo o que eu queria era voltar no tempo. Fazer diferente. Dizer menos algumas coisas, dizer mais outras. Escolher melhor. Amar melhor. Me proteger melhor. Ou, quem sabe, poder destrinchar minha própria mente, abrir espaço, amadurecer à força e arrancar tudo aquilo que não presta: os medos, as culpas, as vozes internas que me diminuem.

Mas isso não é possível.

O que resta é acreditar no processo. Mesmo quando ele dói. Mesmo quando confunde. Mesmo quando parece lento demais. Acreditar nas pessoas que estendem a mão, mesmo sem garantia de permanência. Acreditar que cada passo, por menor que seja, ainda é um avanço. Crescer é aprender a continuar, mesmo cansado. É não sucumbir à pressão de ser perfeito. É entender que sobreviver emocionalmente já é uma forma imensa de vitória. É cair em prantos em silêncio e, ainda assim, levantar no dia seguinte.

Talvez a maturidade não seja ter todas as respostas, mas aceitar que a vida é feita de perguntas. Talvez crescer seja justamente isso: aprender a viver sem certezas, sem mapas, sem garantias, mas com coragem. Bem, pelo menos eu fui lá e fiz. Errei? Beleza, mas eu levantei e fui lá e tentei.

E enquanto não existe manual, a gente escreve o nosso, todos os dias, com erros, rasuras, lágrimas, esperança e fé. Rabiscando erros e tentativas no intuito de um dia acertar. E tudo bem errar no dia seguinte. O que seria dos acertos sem os erros? Como saberíamos que estamos no caminho certo? Erre e não tenha vergonha de errar. Tenha vergonha de não tentar e de não assumir que errou tentando. Na realidade, todo mundo está tentando, você só não vê.

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