
Há amores que chegam como um susto. E há amores que chegam como um reconhecimento antigo, quase cansado de esperar. O meu por você não aconteceu como um raio, aconteceu como uma casa. Primeiro veio o alicerce invisível, esse lugar silencioso onde o corpo repousa antes mesmo de compreender por quê. Eu já te conhecia sem saber. Já te imaginava sem conseguir desenhar. E quando você apareceu, foi como se o sonho tivesse finalmente criado coragem de existir.
Você parece ter saído dos meus pensamentos mais profundos. E talvez tenha sido isso o que mais me desarmou. Porque eu sonhei com alguém assim tantas vezes, mas sempre com aquela certeza triste de que certas belezas não atravessam a realidade. E então você veio. Inteiro. Possível. Real demais para continuar sendo apenas desejo.
Ao contemplar seus cabelos, já me comprometo. Esse acinzentado bonito, elegante, quase insolente na forma como desafia o tempo. Esse corte que eu amo, que desenha o seu rosto como se alguém tivesse suspendido o mundo só para acertar os detalhes. E quando você brinca com a franja, distraído, alheio ao efeito que causa, eu penso que existem gestos que marcam a memória sem pedir licença, com simples entrelaço de fios entre dedos.
O verde dos seus olhos. Verde de grama depois do orvalho: fresco, vivo, quase sagrado. Um verde que acolhe. Quando você me olha, o mundo baixa o tom. Tudo desacelera, tudo se torna mais possível. Seus olhos não atravessam, eles permanecem. E nessa permanência, algo em mim encontra abrigo.
Sua boca, de lábios finos, desenhados com a precisão de um lápis meticulosamente apontado. Como se o artista divino tivesse tido extremo cuidado ao traçá-los, consciente de que ali passariam palavras importantes, silêncios decisivos, beijos destinados a ficar na lembrança do meu corpo. Há algo neles que não pede explicação, apenas me convida à aproximação.
Sua pele me embriaga: o tom, a espessura, a maciez. A pele que reconheço com os dedos, com o toque lento, com a certeza íntima de quem sabe onde está. Gosto da sua pele porque nela eu descanso e, às vezes, até me padeço. Porque ela não exige muito. Gosto do calor, da suavidade, da forma como o seu corpo existe sem pedir desculpas por ocupar espaço. Tocar você é um gesto de fé.
Há algo de profundamente poético em observar você sem pressa. Em reparar no que não se anuncia. Amar você passa muito por isso: pelo olhar atento, pela delicadeza de perceber o que não busca palco. Você não precisa se afirmar, você simplesmente acontece. E, sem dizer nada, me ensina a confiar.
Gosto de vê-lo se arrumar. Esse equilíbrio raro entre o sofisticado e o moderno, entre o clássico e o agora. Amo quando você veste camisa xadrez e os óculos de tartaruga parecem completar um pensamento que precisava apenas de uma particularidade para se tornar quase utópico. Amo seus óculos escuros, seu relógio, o cabelo penteado para trás... não porque isso te faz bonito, mas porque revela, sem esforço, o quanto você já é.
Você carrega uma
elegância que não se impõe. E isso é raro. E isso é tudo.
Mas há dias em que eu não me sinto digno de algo tão bonito, de tanto cuidado.
Há momentos em que o afeto que você me oferece parece grande demais para caber
em mim. E às vezes eu erro, não por ausência de amor, mas por medo. Medo de não
ser o suficiente. Medo de falhar diante da delicadeza do que estamos construindo.
Mesmo assim, você fica. E isso me traz uma paz que eu não sabia que existia.
Saber que o seu companheirismo é real, que a sua presença não depende da minha
perfeição, me devolve o chão. A sua humildade em me ensinar, com conselhos, com
histórias, com silêncios, tudo aquilo que você já atravessou me fortalece. Me
dá fôlego. Me dá vontade de continuar. De ser melhor. Para mim. Para você. Para
nós.
Amar você é perceber que as grandes revoluções acontecem nas entrelinhas. No jeito como você anda. No jeito como escuta. No jeito como permanece. Existe algo de profundamente revolucionário em escolher alguém todos os dias, não em voz alta, não em promessas solenes, mas na escolha miúda: ouvir, ceder, esperar, aprender o ritmo do outro sem tentar reescrevê-lo.
Eu te amo não porque você me completa, mas porque você me expande. Porque ao seu lado eu não diminuo minhas perguntas, apenas deixo de temê-las. Você não apaga minhas sombras, caminha comigo dentro delas. E isso, para mim, é a forma mais honesta de amor.
“Eu procurei a vida inteira por alguém como você.” E dizer isso não me assusta. Porque não vem da carência, vem do encontro. Vem dessa sensação rara de estar exatamente onde se deveria estar. De reconhecer no outro algo que não se inventa. Todas as músicas de amor falharam. Todos os livros ficaram aquém. Todos os filmes erraram o enquadramento. Nada jamais conseguiu, ou conseguirá dizer o que eu sinto por você.
Eu digo que você é lindo. Repito. Insisto. Digo que te amo em diferentes tons, em diferentes dias, em diferentes gestos, em diferentes versões de mim. E ainda assim, mesmo quando você faz careta, mesmo quando não tenta, mesmo quando o mundo pesa, você continua sendo apaixonante. Porque a sua beleza não depende do momento certo, ela está no simples fato de ser.
Talvez porque amar você seja aceitar que não há tradução perfeita. Talvez porque algumas pessoas não vêm para ser explicadas, vêm para ser sentidas. E você é isso. Amar você é um ato de entrega. Um gesto sem armadura. É me permitir sentir fundo, mesmo quando tenho medo. É aceitar o risco, porque há coragem em acreditar que a delicadeza ainda é uma força.
Se me perguntarem o que é o amor, talvez eu
sorria antes de responder. Porque o amor não se explica, se aponta. E eu
apontaria para você. Para o jeito como fica. Para o jeito como cuida. Para o jeito
como permanece. Eu mostraria esse homem resiliente que reconheço. Esse nome que
pronuncio com cuidado. E diria, quase em segredo, sem alarde algum: é aqui, é
nele.
Por Higor Casagrande
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