quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Manual de sobrevivência ao ciúmes e as paranóias

 


Estamos nos primeiros minutos de 2026 e eu queria muito não escrever esse texto agora, neste momento, mas há coisas que precisam sair o mais urgente possível de dentro de nós, então vamos lá: ser uma pessoa ciumenta é cansativo. Não no sentido raso da palavra, mas naquele cansaço que mora dentro, que não desliga quando o dia acaba. É difícil explicar para quem nunca viveu isso, porque não é sobre controle, nem sobre posse. É sobre medo. Medo aprendido. Medo herdado de histórias que machucaram. Grande parte do meu ciúme não nasce do presente, nasce do passado. De experiências em que confiar significou se machucar, em que acreditar foi sinônimo de ser enganado. E o corpo aprende. A mente aprende. Mesmo quando a razão diz “calma”, alguma parte de mim responde “cuidado”.

Às vezes é um detalhe mínimo. Um silêncio fora de hora. Uma resposta atravessada. Um olhar que eu interpreto diferente. Uma mensagem que parece muito, muito suspeira. Pequenos sinais que, para qualquer outra pessoa, talvez passassem despercebidos. Para mim, não. Eu me apego a eles como quem segura uma pista. E fico ali, ruminando, analisando, repetindo a cena mil vezes, esperando o momento em que vou poder tirar a prova do que realmente aconteceu. E isso é horrível.

Porque até lá, a mente não descansa. Existe um empasse constante dentro de mim: será que estão mesmo mentindo para mim ou sou eu que estou sendo paranoico? E essa pergunta não vem com resposta pronta. Ela ecoa. Ela se mistura com tudo. E, enquanto isso, a imaginação trabalha sem limites. Cenários improváveis começam a se formar. Histórias destrutivas, detalhadas, quase cinematográficas. Tudo aquilo que poderia estar acontecendo. Tudo aquilo que talvez esteja acontecendo. Mesmo sem provas, mesmo sem fatos concretos. E o pior: esses cenários parecem reais. Eles doem como se fossem reais. O corpo reage como se fossem reais.

É uma tortura silenciosa. Porque, no fundo, eu não quero desconfiar. Eu queria viver no lugar simples onde as pessoas dizem a verdade, onde não há jogo escondido, onde não é preciso ler entrelinhas o tempo inteiro. Às vezes eu me pergunto, com uma mistura de tristeza e revolta: por que as pessoas simplesmente não podem ser verdadeiras? Quanto sofrimento seria evitado se a verdade fosse o caminho padrão?

Mas aí vem a culpa. A dúvida. O medo de estar projetando fantasmas onde não existem. De estar sabotando algo bom por causa de feridas antigas. E isso também dói. Porque não é fácil perceber que, às vezes, o inimigo mora dentro da própria cabeça. O ciúme, quando nasce do trauma, não quer destruir o outro, ele tenta proteger a si mesmo. Só que, nessa tentativa desesperada de não sofrer de novo, acaba sofrendo antes, sofrendo mais, sofrendo sozinho.

E ainda existe o ciúme retroativo… Mas isso fica para outro post.

Por enquanto, este aqui é só um desabafo. Um registro honesto de como é viver nesse campo minado emocional, tentando equilibrar razão e medo, amor e insegurança, realidade e imaginação.

Se você leu até aqui e se reconheceu, saiba: você não é um monstro. Você é alguém machucado tentando não se machucar de novo. E isso, apesar de tudo, também merece cuidado. Feliz ano novo, eu acho...

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