quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A Delicadeza da Espera

 


Há um tipo de dor que não faz barulho. Ela não se anuncia, não pede testemunhas. Ela apenas se instala. Estou vivendo dentro dela. 

Foi mais como um deslizamento lento. Uma mudança no ar. Um espaço que começou a existir onde antes havia presença. E agora tudo em mim anda com cuidado, como quem pisa num chão que pode ceder a qualquer momento. Sinto-me como alguém que perdeu a visão no meio do caminho. Não por escuridão, mas por excesso de incerteza. Vou tateando os dias, tentando reconhecer o mundo por memória. O futuro parece ali, logo adiante, mas só se revela quando alguém acende a luz e eu espero sem exigir que ela seja acesa. 

Não é responsabilidade de ninguém carregar minhas angústias. Ainda assim, há coisas da vida que ficam suspensas quando não se sabe para onde seguir. E eu permaneço nesse intervalo, aprendendo a respirar entre uma possibilidade e outra. Os dias se parecem com um pesadelo interminável. A sensação é estranhamente parecida com luto, como se algo muito vivo tivesse ficado imóvel dentro de mim. Nada morreu, porque acredito no que sinto e serei fiel ao meu amor até que eu apodreça, morto e enterrado. 

O que dói é estar de mãos atadas. Não por falta de vontade, mas por excesso de cuidado. Qualquer palavra pode ser demais. Qualquer gesto pode romper algo frágil demais para ser tocado agora. Então fico em silêncio, não por ausência de amor, mas por respeito. Continuo vivendo, mas tudo acontece em tom menor. O mundo segue, as pessoas falam, os dias passam e eu passo por eles como quem atravessa uma casa escura sem querer acender a luz, com medo de assustar o que ainda pode estar ali, mas querendo espantar os fantasmas que em suma são apenas sombras de móveis que parecem monstros onde não há clareza.

E mesmo assim, eu amo. Com uma intensidade que não se exibe. Amo como quem permanece sentado à beira da cama esperando que alguém acorde. Nunca amei ninguém assim. Não com a pressa dos romances fáceis, mas com essa entrega silenciosa de quem permanece mesmo quando não é visto. Amar, agora, é aceitar a espera sem transformá-la em acusação. É sentir a dor sem apontar culpados. Só com essa certeza estranha de que o sentimento existe mesmo quando não é dito. Não sei o que esse silêncio significa. Talvez seja apenas um intervalo necessário. Talvez seja o jeito que a vida encontrou de reorganizar o que saiu do lugar. Eu não sei. 

E aprender a não saber tem sido uma das tarefas mais difíceis que já enfrentei. Mas há algo que ainda pulsa, forte, robusto. Uma esperança que não grita, não implora, não corre. Ela apenas fica e espera. Como uma luz acesa em outro cômodo: não ilumina tudo, mas prova que a casa ainda não está vazia. E por enquanto, isso basta para continuar. Se este texto chegou até você, cito aqui versos de alguém que gosto muito e você conhece: “Eu ainda estou aqui, perdido em mil versões irreais de mim. Estou aqui por trás de todo o caos em que a vida se fez [...] Não me esqueci de quem eu sou e o quanto devo a você. Tenta me reconhecer no temporal, me espera.” Tenta não se acostumar, porque eu te espero. O tempo que for.

Créditos por citação:
Música: “Me Espera” – Sandy feat. Tiago Iorc (2016).

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