Há um tipo de dor que não grita, mas ocupa tudo. Ela se senta à mesa enquanto sou mero telespectador das refeições de quem convive comigo. Ela se deita ao meu lado quando tento dormir e me acorda antes de cochilar. Ela atravessa o dia inteiro como um pensamento fixo: você. Uma forma silenciosa de desordem. Nada explode, tudo apenas sai do lugar. Não consigo comer. O corpo rejeita a rotina como se ela fosse uma ofensa pessoal. Não consigo trabalhar. As palavras se desfazem antes de alcançar sentido. Não consigo pensar em outra coisa porque o pensamento inteiro passou a ter o seu nome.
Olho o celular a cada minuto. Tudo parece suspenso. O dia perde sentido, as horas não avançam, o mundo continua funcionando sem perceber que algo essencial em mim parou. É como se eu estivesse aguardando a luz do sol num quarto sem janelas. Tento ser resiliente, porque amor é isso, não é? Insistir quando a razão já se sentou cansada, pedindo silêncio.
É como se fosse 2020 novamente e todos achávamos que quando o ano virasse o covid acabaria, só porque o ano virou. Foi essa sensação ao ver o relógio passar da meia-noite. Uma esperança de que sua mensagem chegasse, de que você precise apenas de tempo, de que ainda exista um espaço onde você possa me ouvir sem ruído, sem defesa, sem pressa. Em que você acredite em mim. Porque não consigo cogitar que você esteja pensando o que suponho. É um disparate associar isso a mim e no fundo você sabe.
Eu só preciso explicar. E você, talvez, só precise de tempo.
Passei o dia chorando com a sensação de ter algo cravado no peito. Uma dor violenta, era persistente. Uma dor que não mata de uma vez, mas cansa. Que não sangra, mas enfraquece. Chorei até o ponto em que a vida ficou estreita. A dor me levou ao limite, por pouco não abracei a morte duas vezes no mesmo dia. Porque não quero e não cogito um futuro sem você. Não mais.
Estou definhando aos poucos. O sono não vem quando eu chamo. E quando vem, chega curto, frágil, quase um favor. Nele, você aparece. Sua mensagem chega. Seu nome ilumina a tela. Você liga. E por alguns segundos tudo volta ao lugar certo, até que eu acordo.
Ainda não são sete da manhã. Sonhei que estava diante de você, que você me olhava nos olhos com aquela mistura de firmeza e cuidado que eu conheço tão bem. Acordei. Havia apenas a parede fria pela chuva insistente, o dia começando cinza para as pessoas e, preto e branco para mim.
Naquela mesma parede, sua foto continua. Na cabeceira, você permanece. No meu coração, você não saiu. E na minha alma, essa parte que não se explica, não se organiza, não se defende, você ficará por tempo indefinido. Talvez para sempre. Porque há amores que não acabam. Eles apenas ficam suspensos, esperando que a verdade encontre o momento certo de ser dita.
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