sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

desabafo lúcido de alguém exausto de sentir demais

 

Se eu morrer, não será de overdose ou suicídio. 
Será de tristeza.

Será desse pensamento que não desliga,
desse cérebro que nunca aceita o silêncio,
que transforma pequenos sinais em teorias,
olhares em ameaças,
pausas em abandonos iminentes.

Eu penso demais.
Analiso demais.
Sinto demais.
E o excesso cansa mais do que qualquer vício.

Há dias em que a mente cria labirintos tão complexos que não importa quantas vezes eu tente explicar: ninguém de fora entende.
Chamam de paranoia, exagero, drama.
Mas quem vive dentro da própria cabeça sabe que o medo não pede permissão para existir.

Os medicamentos, que um dia prometeram equilíbrio, hoje parecem decorativos.
Estão ali, cumprindo protocolo,
mas já não alcançam o lugar onde a angústia se esconde.
Eles não silenciam o coração acelerado,
não interrompem os filmes catastróficos que passam em looping,
não seguram a queda quando tudo dentro começa a desabar.

E então existe a bebida.
Não como festa.
Não como fuga bonita.
Mas como anestesia.

Ela não resolve, eu sei.
Nunca resolveu.
Mas, por algumas horas, ela cala.
Ela entorpece a dor que não sabe esperar,
ela desacelera a mente o suficiente para que eu não enlouqueça.
É cansativo depois.
O corpo cobra.
A cabeça pesa.
A culpa vem.

E ainda assim, naquele momento, parece necessária.
Porque a alternativa é pior:
é perder o controle,
é chorar sem saber por quê,
é surtar em silêncio enquanto todo mundo acha que está tudo bem.

O que mais dói, às vezes, não é beber,
é a cobrança de quem está de fora.
“Para!”
“Isso não ajuda!”
“Você precisa ser mais forte!”

Como se força fosse um botão.
Como se parar fosse simples.
Como se o caos interno respeitasse conselhos bem-intencionados.

Ninguém vê o esforço diário para não desmoronar.
Ninguém sente o peso de existir com medo constante.
Ninguém entende que, às vezes, não é sobre querer se destruir,
é sobre tentar sobreviver ao próprio excesso de sentir.

Se eu morrer, não será por escolha consciente.
Será por desgaste.
Por tristeza acumulada.
Por noites mal dormidas.
Por pensamentos que nunca descansam.

Será porque viver, em certos dias, exige mais do que eu tenho para oferecer.

E ainda assim, eu continuo.
Sem saber até quando.
Mesmo cansado.
Mesmo falho.
Mesmo com medo.

Porque, no fundo, isso não é um pedido de fim.
É um pedido de silêncio.
De paz.
De descanso dentro da própria mente.

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