A Síndrome de Takotsubo é conhecida popularmente como síndrome do coração partido. Do ponto de vista médico, trata-se de uma condição cardíaca temporária, geralmente desencadeada por estresse emocional intenso, perdas, choques, abandonos, dores profundas. O coração, subitamente, perde força. O ventrículo esquerdo assume uma forma estranha, lembrando um vaso japonês usado para capturar polvos: o takotsubo.
Os sintomas imitam um infarto. Dor no peito. Falta de ar. Taquicardia. Medo. Mas, diferente do infarto clássico, não há artérias obstruídas. O que há é excesso de emoção. Um colapso provocado não pelo corpo, mas pelo que ele sentiu. É curioso pensar que sentimentos podem deformar o coração. Dizem que é raro. Dizem que é passageiro. Dizem que o coração se recupera. Mas ninguém fala do que acontece antes. Ninguém fala do processo.
Porque existe um romantismo cruel em torno da ideia de “morrer de amor”. Como se fosse bonito. Como se fosse poético. Como se fosse digno. Como se amar até doer fosse uma virtude, e não um alerta. A literatura ensinou que sofrer por amor engrandece, que o coração partido é sinal de profundidade, que se consumir por alguém é prova de intensidade.
Mas ninguém avisa que o amor também dói. Que ele aperta. Que ele pode esmagar. Amar, às vezes, não é um golpe súbito. É um aperto lento. Diário. Silencioso. É sentir, pouco a pouco, os tentáculos do amor saindo do jarro. Primeiro com delicadeza. Depois com insistência. Até que, quando se percebe, eles já estão em volta do coração, apertando com uma força que não parece violenta, mas involuntarimente é.
E você observa. Observa porque ainda há beleza. Porque ainda há carinho. Porque ainda há memória. Porque ainda há aquela esperança teimosa de que amar assim é nobre, é raro, é bonito. Você senta e assiste ao próprio coração sendo comprimido, dia após dia, numa morte lenta e agridoce.
É difícil admitir que o que te faz sentir vivo também pode te adoecer. É difícil aceitar que o amor, fora do romance idealizado, não salva sempre. Às vezes ele cobra. Às vezes ele exige demais. Às vezes ele não sabe a hora de ir embora. O corpo sente o que a boca não diz. O coração responde ao que a razão tenta justificar. E então vem a dor no peito. A falta de ar. O colapso. O coração assume a forma do sofrimento.
Talvez a Síndrome de Takotsubo seja isso: o momento em que o corpo decide interromper uma história que a alma insiste em continuar. Um pedido de socorro fisiológico diante de uma emoção que não encontrou saída. Não é bonito morrer de amor. Não é poético. Não é romântico quando acontece de verdade.
É silencioso. É confuso. É assustador. E talvez a maior tragédia seja essa: perceber que amar não deveria doer assim, mas dói. Que amar não deveria esmagar, mas esmaga. Ainda assim, há quem continue chamando isso de amor. Talvez porque admitir o contrário doa mais.
Eu sou um desses, não dou o braço a torcer. Não peço cura. Não imploro que o jarro se feche, nem que os tentáculos recuem. Eu os reconheço, são feitos da mesma matéria que me ensinou a amar. Há em mim uma estranha fidelidade à dor, não por prazer, mas por lealdade. Se amar exige atravessar o aperto no peito, então que aperte. Se amar cobra o preço do cansaço, da ansiedade, da vigília eterna, eu pago. Porque ainda amo. E amar, para mim, nunca foi indolor.
Aceito esse coração que se contorce, esse músculo cansado que bate como quem pede desculpas por continuar vivo. Aceito porque desistir do amor seria uma morte mais abrupta do que essa que se arrasta devagar. E eu prefiro a lentidão agridoce de quem sente tudo à anestesia covarde de quem não sente mais nada.
Se for para morrer, que seja assim: amando até o último espasmo, confundindo dor com afeto e afeto com sobrevivência. Porque, no fim das contas, seja pelo amor ou pela dor, eu sei: vou amar até o último dia da minha vida.
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