domingo, 8 de fevereiro de 2026

A delicadeza brutal de amar


Meu amor dói porque é real. Não é joguinho, não é distração, não é carência vazia. É vínculo. É entrega. É querer cuidar, proteger, somar, construir. É esse tipo de amor que cria raízes, que não aceita superficialidade, que não sabe existir pela metade. E quando se ama assim, segurar esse sentimento dentro do peito se torna quase físico. Parece que o corpo vai explodir se não falar, se não tocar, se não demonstrar. Amar, às vezes, dói como excesso.

Mesmo assim, tenho tentado esperar. Tentando me manter afastado, com carinhos leves e afetos bobos. Escolho o silêncio como forma torta de cuidado. Talvez isso seja amar na sua versão mais difícil: ter que me recusar para te aceitar, me conter para não te pressionar, me diminuir para não te perder. Vou me anulando aos poucos, fingindo que não sinto na intensidade que sinto, tentando caber num espaço menor do que aquele que sou. E isso dói. Dói calar quando tudo em mim quer gritar. Dói conter quando tudo em mim quer transbordar. Dói esperar quando tudo em mim quer correr. 

Sinto que estou me perdendo nesse processo. Me sufocando. Traindo, dia após dia, o meu próprio coração. E o que eu recebo em troca disso tudo? Quando peço algo simples, quase mínimo, encontro resistência. Silêncio. Desvio. Negação. Fico tentando entender: é orgulho? Egoísmo? Desatenção? É falta de empatia? Porque quando alguém faz algo sabendo que machuca, que abre feridas, que arranca lágrimas, não há muito o que discutir: há ausência de cuidado. E ausência de cuidado também é escolha. 

Não te peço o impossível. Não te peço gestos grandiosos, promessas eternas, sacrifícios épicos. Peço apenas o básico: presença, consideração, respeito. Coisas pequenas que, quando faltam, viram abismos. Mas toda vez que tento falar sobre o que me dói, você faz exatamente o oposto do que eu peço. E eu saio disso menor, mais inseguro, mais machucado, mais confuso. Não me diga que isso é justo. Não é.  Dizem que somos parecidos, que nossos signos se tocam, que nossas naturezas se reconhecem. Mas eu não me vejo em você quando me trata assim. Eu jamais faria comigo o que sinto que recebo. E talvez seja isso que mais doa: perceber que eu cuido de você de um jeito que não retorna para mim. 

Eu gosto tanto de você. Mas esse gostar vem acompanhado de um nó no estômago, de um aperto constante no peito, de uma ansiedade que não descansa. Amar não deveria ser um campo minado. Amar não deveria doer assim o tempo inteiro. Amar não deveria exigir que eu desapareça para que o outro fique confortável. 

Cheguei num ponto em que já não sei nomear o que sinto. Tudo se mistura: confusão, cansaço, tristeza, medo, exaustão emocional. Só sei que não quero mais viver nesse estado de alerta permanente, onde cada gesto é dúvida e cada silêncio é uma queda. 

Eu não posso mais abrir mão de mim. Não posso continuar me desmontando para tentar manter algo que só se sustenta porque eu seguro sozinho. Eu faço tudo o que posso. Dou mais do que sei. Tento mais do que consigo. Mas não posso continuar traindo minha própria existência em nome de um amor que não me devolve abrigo. 

Talvez amar também seja saber parar. Talvez cuidar de mim agora seja a forma mais honesta de continuar existindo.

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