quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Manual para quem cresceu sem manual

 


Crescer é difícil. Ninguém avisa o quanto. Ninguém entrega um manual, um mapa, uma bússola. A gente simplesmente acorda um dia e percebe que virou responsável por si mesmo e isso assusta mais do que deveria.

Depois dos vinte, tudo vira uma confusão. A vida deixa de ser promessa e passa a ser cobrança. Você se torna um soldado em uma guerra invisível, chamada vida, em que os inimigos não usam armas, mas pensamentos: inseguranças, paranoias, medos de errar, medo de não ser suficiente, medo de decepcionar. Medo de tudo.

E o mais irônico é que estamos aqui exatamente para errar. Para tentar, tropeçar, cair, levantar, aprender. Mas parece que o mundo exige perfeição de quem ainda está aprendendo a existir. É estranho, para quem está de fora, me ver escrevendo algo assim já tendo trinta anos. Como se aos trinta tudo devesse estar resolvido, encaixado, concluído. Mas a verdade não está no “já”, está no “ainda”. Ainda estamos aprendendo. Ainda estamos tropeçando. Ainda estamos tentando entender quem somos e o que queremos. Crescemos alimentados pela ilusão de que nessa idade já teríamos a vida inteira organizada: família formada, casa própria, morando em uma cidade grande, emprego fixo, estabilidade emocional. Mas a realidade é bem menos cinematográfica. A gente não está vivendo um sonho pronto, a gente está sobrevivendo. Está matando um monstro por dia. Enfrentando batalhas invisíveis. Tentando não desmoronar diante de expectativas que nem sempre foram nossas.

Caminhamos como se estivéssemos em um campo minado. Cada palavra pode ser um risco. Cada sentimento exposto, uma vulnerabilidade. A gente mede o que fala, engole o que sente, pisa em ovos o tempo inteiro, com medo de dizer algo errado, ser mal interpretado, machucar alguém ou acabar explodindo tudo por uma frase mal colocada. O coração fica sempre aberto, mas nunca seguro. "Nem todo mundo está preprado para a sua intensidade", me disseram.

Às vezes, tudo o que eu queria era voltar no tempo. Fazer diferente. Dizer menos algumas coisas, dizer mais outras. Escolher melhor. Amar melhor. Me proteger melhor. Ou, quem sabe, poder destrinchar minha própria mente, abrir espaço, amadurecer à força e arrancar tudo aquilo que não presta: os medos, as culpas, as vozes internas que me diminuem.

Mas isso não é possível.

O que resta é acreditar no processo. Mesmo quando ele dói. Mesmo quando confunde. Mesmo quando parece lento demais. Acreditar nas pessoas que estendem a mão, mesmo sem garantia de permanência. Acreditar que cada passo, por menor que seja, ainda é um avanço. Crescer é aprender a continuar, mesmo cansado. É não sucumbir à pressão de ser perfeito. É entender que sobreviver emocionalmente já é uma forma imensa de vitória. É cair em prantos em silêncio e, ainda assim, levantar no dia seguinte.

Talvez a maturidade não seja ter todas as respostas, mas aceitar que a vida é feita de perguntas. Talvez crescer seja justamente isso: aprender a viver sem certezas, sem mapas, sem garantias, mas com coragem. Bem, pelo menos eu fui lá e fiz. Errei? Beleza, mas eu levantei e fui lá e tentei.

E enquanto não existe manual, a gente escreve o nosso, todos os dias, com erros, rasuras, lágrimas, esperança e fé. Rabiscando erros e tentativas no intuito de um dia acertar. E tudo bem errar no dia seguinte. O que seria dos acertos sem os erros? Como saberíamos que estamos no caminho certo? Erre e não tenha vergonha de errar. Tenha vergonha de não tentar e de não assumir que errou tentando. Na realidade, todo mundo está tentando, você só não vê.

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