
Estou passando por uma fase em que só consigo esquecer a dor quando estou bêbado ou dormindo. Todo o resto do tempo é atravessar os dias com o peito aberto, tentando respirar enquanto algo em mim sangra. Não é escolha, é fuga. Um intervalo curto de silêncio dentro de uma mente que não descansa.
Tudo começou maravilhosamente bem. Parecia um conto de fadas moderno, improvável, intenso. Tinha cheiro de promessa, gosto de futuro, textura de casa. Era leve, bonito demais para ser real. E, de repente, tudo desmoronou. Sem aviso. Sem preparação. Sem explicação. O encanto virou ruído. O cuidado virou distância. A sensibilidade virou apatia.
Você mudou. Ficou seco, distante, egoísta. Onde antes havia diálogo, agora existe silêncio. Onde havia afeto, agora há frieza. Eu te peço tão pouco, coisas simples, pequenas, quase bobas e você transforma isso em cobrança, como se eu estivesse exigindo algo impossível, como se amar fosse um sacrifício e não uma escolha. Não quero te podar. Não quero te limitar. Eu só quero não sangrar. Quero que entenda que essas pequenas coisas me machucam. É tão difícil não as fazer? Sério, é tão difícil assim?
Há dias em que o silêncio pesa mais do que qualquer palavra dura. Ficar sem notícias enquanto você atravessa vinte e quatro horas com o celular na mão, esperar um sinal é uma forma lenta de esgotamento. Cada minuto sem resposta cria uma história nova dentro da cabeça, e o que era apenas espera vira ansiedade, e o que era apenas curiosidade vira medo. Uma simples explicação, que poderia aliviar tudo, se transforma em algo que você chama de monitoramento, como se pedir presença fosse vigiar, como se querer saber do outro fosse invadir. E se eu digo, você acha que estou duvidando da sua lealdade. Coloca na balança, para e pensa um pouquinho, não é difícil. E assim eu fico, parado entre a vontade de falar e o receio de incomodar, entre a necessidade de existir para você e o medo de ser demais.
Mas você parece confundir limite com prisão, pedido com controle, afeto com ameaça. E então faz exatamente aquilo que sabe que me fere. Não por descuido, mas por desafio. Como uma criança birrenta que precisa provar algo ao próprio ego. Você sabe exatamente onde dói e toca. Sempre toca. E eu fico me perguntando: isso é gostar? Isso é amor? Como alguém consegue colocar coisas tão pequenas, tão passageiras, acima de sentimentos tão grandes? De pessoas? De vínculos?
Você se fechou dentro de um casulo e chama isso de proteção. Usa essa armadura para se defender de algo que não quer te ferir. Se alguém algum dia te machucou, eu não sou essa pessoa. Eu não sou o seu trauma. Eu sou o seu agora. E mesmo assim, parece tão difícil entender que eu sinto. Que eu me machuco. Que eu me quebro um pouco toda vez que você escolhe ignorar aquilo que eu peço com tanto cuidado.
Dentro de mim existe um arrombo no meio do peito. Um buraco que não cicatriza. Às vezes você vem, cobre com um esparadrapo frágil, oferece calor, devolve esperança. E eu respiro. Mas logo depois, sem aviso, puxa com força, repetindo exatamente o que sabe que vai me derrubar. Esse vai e vem me desmonta. Me confunde. Me adoece. Que tipo de cuidado é esse que fere mais do que protege? Que tipo de amor é esse que machuca mais do que acolhe?
Você disse à minha mãe que sente um carinho imenso por mim, que me ama. E eu tento entender que amor é esse tão incompreensível, que me deixa em permanente estado de alerta, tentando adivinhar se hoje será dia de abrigo ou de queda. Que amor é esse que me faz desejar desaparecer só para não sentir mais nada? A vontade de morrer, a exaustão de existir assim. Estou cansado de sangrar.
Os dias têm sido difíceis. Pesados. Arrastados. Há uma vontade constante de sumir, de pausar o mundo, de desligar tudo por um tempo. Só para respirar sem medo, sem receio, sem esse nó permanente no peito. Pensar machuca. Sentir machuca. Estar acordado dói. E às vezes a embriaguez parece a única trégua possível.
Mesmo assim, continuo. Tentando entender meus limites. Tentando não me perder completamente de mim. Tentando permanecer inteiro em um lugar que me fragmenta. Às vezes consigo. Às vezes não. Mas sigo, mesmo sem saber direito para onde estou indo.
Escrevo porque preciso escoar. Porque guardar machuca mais. Porque transformar dor em palavra é uma forma de sobreviver a ela. Organizar o caos. Dar nome ao que sangra. Talvez seja essa minha última forma de resistência.
No fundo, o que mais dói não é o que foi dito ou feito. É o que deixou de ser. É a promessa silenciosa de cuidado que nunca se cumpre. É amar alguém e, ainda assim, sentir-se sozinho.
Porque amor não deveria ser sobrevivência.
Amor deveria ser sobre vivência.
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